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Augusto Pinz

Caso de racismo será apurado pela direção do HE-UFPel


Um ato de racismo sofrido por estudante da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas (Famed-UFPel) trouxe à tona uma série de outros relatos e os casos prometem ser apurados. Na hora de ingressar no Hospital-Escola (HE), alunos negros têm sido barrados na portaria, para que apresentem identificação. Em algumas situações, mesmo com o crachá visível, os acadêmicos teriam sido impedidos de entrar enquanto há a verificação se o documento é verdadeiro. Enquanto isso, os jovens brancos têm acesso liberado às dependências da instituição, ainda que estejam sem qualquer identificação. O Diretório Acadêmico Naum Keiserman já publicou nota de repúdio em função dos episódios.

Na segunda-feira (7/3/22), a direção do HE reuniu-se com a coordenação de Diversidade e Inclusão da UFPel para elaborar estratégia de ação e combater de maneira efetiva o racismo e qualquer outra forma de discriminação. Em nota publicada no domingo, ao tomar conhecimento do fato, a Superintendência afirma: ... nos comprometemos a investir todos os esforços e a adotar todas as providências necessárias para iniciar no nosso hospital a mudança que gostaríamos de ver na nossa sociedade - destaca o texto, adotado também como pronunciamento da Reitoria da UFPel. A manifestação oficial ainda menciona profunda consternação com a informação de que o caso registrado na última quinta-feira não é isolado."

"A diretora da Famed, Julieta Fripp, irá reunir-se com representantes do Coletivo dos Estudantes Negros Merit Ptah e do Coletivo Auto-organizado de Estudantes e Profissionais Negras e Negros da Medicina (Negrex). A realização de um seminário, para ampliar as discussões, não está descartada. "Não concordamos que o porteiro deste último caso seja penalizado. Queremos, sim, um processo educativo, que possa gerar consciência na comunidade interna", destaca. E defende a posição com a responsabilidade de quem está à frente de um grupo composto por aproximadamente mil estudantes dos cursos de Medicina, de Terapia Ocupacional e de Psicologia, além de cerca de 130 professores e 110 técnico-administrativos.

"Temos que pensar em produzir materiais para chefias das empresas terceirizadas, para evitar que os nossos pacientes, que são os usuários dos serviços, também possam ser, eventualmente, vítimas de racismo", adiantou Julieta, ao mapear os diferentes ambientes de atuação, que passam não só pelo Hospital-Escola. Há os ambulatórios e as Unidades Básicas de Saúde (UBSs).

"Foi racismo puro e claro"

O tom ainda é de desabafo. O mineiro Lupercio Silva Lanounier, 26, levou algumas horas para confirmar que havia sido alvo de racismo. E, em seguida, teve uma certeza: não era o único. Era tarde de quinta-feira. Dia de plantão. O jovem tinha estágio na Clínica Médica, já que está no primeiro ano do internado, 9º semestre do curso de Medicina; motivo de orgulho dos familiares.

Ao cruzar a mesma portaria por onde circula quase todos os dias, desde 1º de janeiro, precisou tirar os fones de ouvido para entender o que ocorria. Como não estava com o crachá em mãos, precisou acessar o sistema para apresentar o atestado de matrícula e comprovar, também através de foto, que era estudante da Famed.

Em seguida, com a entrada autorizada, conseguiu conversar com outros estudantes e veio a confirmação: ninguém havia sido barrado na porta do HE-UFPel, mesmo sem identificação ou jaleco. Detalhe: eram todos brancos. "Perguntei se alguém também tinha sido parado. Queria entender se estavam adotando alguma medida nova de segurança e descobri que não", conta. "Fiquei atônito. Tive ciência de que era racismo puro e claro", afirma.

Lupercio Lanounier decidiu, então, levar o relato adiante. E, através dos Coletivos, veio a triste confirmação de que outros estudantes negros também têm enfrentado a mesma situação. E há anos. Em uma mesma condição, acadêmicos brancos passam sem checagem. Os pretos, não raro, precisam ter crachás visíveis. Do contrário, podem ter o caminho interrompido. "Em função de um desabafo, surgiram outros desabafos, que demonstram que o racismo ocorre sistematicamente", lamenta o jovem, que deixou a cidade de Bambuí, em Minas Gerais, em 2017, para concretizar um sonho em Pelotas.

A inclusão precisa ser real

O caso que veio à tona agora faz pulsar uma série de outros debates urgentes. E o da inclusão, real, é um deles. "Precisamos de uma alteração do plano curricular. Precisamos de modelos de inclusão para que os alunos se sintam pertencentes. Não estudamos corpos negros e indígenas", exemplifica o acadêmico do 8º semestre, Jilvani Farias dos Santos, 28. E como membro do Coletivo Negrex e da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (Denem), o goiano defende a necessidade de atendimento psicológico e a criação de disciplina optativa que coloque o racismo como indicador de saúde, já que, muitas vezes, pode estar associado a quadros depressivos e de ansiedade.

"Temos que combater o racismo, que nos adoece. Conviver com isso todo o dia nos adoece", sustenta. E lembra que ainda no 3º semestre, quando passou a fazer a disciplina de Semiologia, também enfrentou o constrangimento de ser barrado na porta do Hospital-Escola. Ao ajudar a elaborar a nota de repúdio - assinada pelo Diretório Acadêmico, a Denem e os Coletivos Negrex e Merit Ptah -, Jilvani dos Santos procura fazer ecoar uma mensagem expressa no documento: ... Esperamos desta Universidade e de seus órgãos vinculados que o combate ao racismo seja uma política permanente e a Faculdade de Medicina, enquanto unidade de ensino em saúde, reconheça o racismo como parte estruturante da determinação social do processo saúde-doença e trabalhe no combate de qualquer tipo de opressão."

Diário Popular - Por: Michele Ferreira


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