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50 anos de Capoeira no RS - Homenagem da Assembleia Legislativa

O aniversário de 50 anos da Capoeira no Rio Grande do Sul foi motivo de homenagem realizada nesta segunda-feira (4) pela Comissão de Cidadania e Direitos Humanos (CCDH), que reconheceu a trajetória de 30 professores e mestres responsáveis por construir a história dessa arte nos municípios gaúchos. O ato prestigiado pelo secretário de Estado do Esporte e Lazer, João Derly, reuniu autoridades, familiares e comunidade capoeirista no Salão Júlio de Castilhos, integrando a programação da Semana da Consciência Negra de 2019 da Assembleia Legislativa.

A nominata de agraciados foi elaborada pela Federação Gaúcha de Artes Marciais Mistas (FEGAMM) e também contou com a indicação de alguns parlamentares membros da CCDH. Foram considerados critérios de representatividade, antiguidade, trajetória na prática da capoeira e, em especial, as contribuições para o seu crescimento, para o combate à marginalização da capoeira, para a promoção da cidadania, da cultura, da educação e da inclusão social em nosso Estado, inclusive a divulgação da capoeira no Brasil e no exterior.

Da criminalização a patrimônio da humanidade
Ao abrir a solenidade, o presidente da CCDH, deputado Sergio Peres (Republicanos) classificou a capoeira como símbolo da liberdade e da miscigenação do povo brasileiro. Destacou avanços históricos da arte marcial, que já foi considerada crime até 1932, ano em que o então presidente da República, Getúlio Vargas, liberou manifestações populares que estavam proibidas, entre elas, a capoeira. Em 1936, foi extinto o decreto que criminalizava a sua prática, reconhecendo a capoeira como esporte nacional.

Há cinco anos, a capoeira foi declarada patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco, por representar a luta e resistência dos negros brasileiros contra a escravidão. “Hoje, os gritos por liberdade ainda podem ser ouvidos na roda de capoeira. Esse círculo que tão bem representa o ideal de sociedade que nós sonhamos: de união de forças, de igualdade, de alegria, de respeito mútuo, de olhar o outro como parte de nós mesmos”, avaliou. 

Voz contra o racismo
A deputada Luciana Genro (PSol) chamou a atenção para a vocação inclusiva da capoeira e para o papel da arte marcial no combate ao racismo. “Se, na sua origem, a capoeira é método de resistência dos escravos para que pudessem se sentir protegidos e livres, hoje é manifestação da cultura de um povo, é dança, esporte, arte e, acima de tudo, é a expressão de luta pelo fim do racismo”, observou a parlamentar, que no último mês de outubro, homenageou os povos de matriz africana durante Grande Expediente da Assembleia Legislativa.

A experiência da capoeira como ferramenta de educação e inclusão social faz parte da trajetória da deputada que fundou, em 2011, no Rio Grande do Sul, a ONG Emancipa, iniciativa que integra o movimento nacional Emancipa, voltado à educação popular. A Casa Emancipa Restinga, no Bairro Restinga, de Porto Alegre, é um dos projetos colocados em prática pela ONG presidida por Luciana. Entre as diversas atividades gratuitas oferecidas desde 2017, o universo da capoeira é apresentado às crianças pelo professor Tiago Candido dos Santos (Prof. Pulga), sob a supervisão do Contramestre Jurandir Ochagavia, um dos homenageados pela CCDH.

“A capoeira é exemplo de respeito, de hierarquia, de disciplina, mas também de liberdade. Ainda temos um longo caminho a percorrer para vencer o racismo estrutural em nossa sociedade. E vocês são símbolos de uma luta contra a discriminação e contra a falta de oportunidades”, reconheceu, ao se dirigir aos professores e mestres.

Pioneirismo
O presidente da FEGAMM, Fernando Rodrigues Cantes (Mestre Pelé), pontuou os últimos avanços da representatividade da capoeira perante o poder público e a sociedade. “Temos orgulho em assistir ao crescimento da participação das mulheres na nossa arte. Não é só uma evolução numérica: as mulheres estão mostrando trabalho de excelência tanto na prática da capoeira, visível no desempenho nas competições, como no ensino dela para alunos de todas as idades”, constatou. Cantes também sublinhou o reconhecimento que a capoeira alcançou como promotora da saúde e do desenvolvimento psicomotor de crianças, chamando a atenção, também, para o ensino da capoeira nas Apaes, voltado a crianças com deficiência.

Dois precursores do ensino da capoeira receberam menção especial na homenagem feita pela CCDH: Manoel Olímpio de Souza, o Grão-mestre Índio da Bahia, do Grupo Oxóssi, e Paulo Cavalcante de Oliveira, o Mestre Paulinho, do Grupo Muzenza. Na década de 1970, eles trouxeram para o Rio Grande do Sul estilos de jogo até hoje praticados em escolas, academias e centros culturais.

“Professores e mestres são guardiões de uma história e de uma tradição; são símbolos de uma luta pela liberdade do corpo e do espírito. É uma luta que nós não queremos que termine, pois sabemos que o sonho de liberdade de um povo escravizado ainda não foi concretizado. A escravidão tem muitas faces, e ela ainda está escrita no DNA da nossa sociedade”, apontou Sergio Peres.

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