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CREHNOR CANGUÇU/RS

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Eliezer Rutz Antenas

EFASul, em Canguçu, destaque em reportagem do Diário Popular

“Hoje eu percebo que o sofrimento era muito mais psicológico do que físico.” As palavras do jovem Mikael Barboza Padilha, 21, servem de síntese ao sentimento que prevalece entre os 25 alunos da Escola Família Agrícola da Região Sul (EFASul), instalada em Canguçu. A zona rural não precisa ser encarada como sinônimo de sacrifício, de pobreza e de poucas oportunidades. É possível, sim, enxergar perspectiva no campo. É a grande lição tirada deste primeiro ano de atividades. E a fase já é de planos.
O Diário Popular foi até lá conhecer a instituição de Ensino Médio Técnico em Agroecologia, que desenvolve todo o trabalho alicerçada na pedagogia da alternância. E, como o nome indica, os estudantes alternam uma semana na escola - no sistema de internato - e uma semana na propriedade rural da família.
O intervalo em casa, entretanto, está longe de se transformar em folga. Os alunos recebem tarefas, voltam o olhar à produção familiar e no bate-papo com pais e avós em busca de informações, não raro, passam a valorizar esse saber popular. E o melhor: passam a cogitar a hipótese de permanecer ali, no futuro.
É o caso da adolescente Larissa da Silva, 17, moradora da Colônia Santo Antônio, 7º distrito de Pelotas. “Antes eu não me interessava. Só pensava em ir para cidade”, conta. Hoje, enquanto alimenta o sonho de cursar Veterinária para também se dedicar ao pequeno rebanho dos Silva, empolga-se na produção de adubo orgânico - com minhocário e composteira -, que fortaleça o cultivo de hortaliças, de milho e de feijão.

Potencializar propriedades
O jovem Mikael Padilha orgulha-se em falar nas origens e lembra-se da palavra dos pais, ao dedicar-se às aulas do Ensino Médio Técnico. “Sempre me disseram para estudar, para não sofrer o mesmo que eles.” E é o que tem feito, ao lado da irmã Tainá, 17 anos.

Ao projetar o futuro, o morador do assentamento Arroio das Pedras, no 5º distrito de Canguçu, já avalia a possibilidade de fazer faculdade de Veterinária ou de Agronomia; algo que o mantenha com os pés fincados na zona rural. Algo que o permita estar por perto para cuidar dos pomares cada vez mais variados, com pêssego, banana, ameixa... Quem sabe, poder ampliar a produção, com a busca de novos mercados às frutas.
Mais próximo da comunidade e da realidade
Instituição comunitária - A Escola Família Agrícola da Região Sul é totalmente gratuita. Enquanto a associação de agricultores - que funcionará como mantenedora da EFA - é formalmente constituída, o Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) é o certificador da instituição. A busca por verbas federais, como as do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), entretanto, ainda não é possível. Em breve, a EFASul deve encaminhar toda a documentação para registro junto ao Conselho Estadual de Educação.
Perfil dos alunos - Todos os estudantes vivem na zona rural. São jovens e adultos vinculados à agricultura familiar, a comunidades quilombolas e a assentamentos da reforma agrária. A expectativa é de que comunidades de pescadores também sejam contempladas. Atualmente, são 25 vagas: 15 homens e dez mulheres. Todos moradores de Canguçu, Cerrito e Pelotas. O projeto é de que, cada vez mais, outras cidades da Zona Sul integrem o grupo.
Perfil dos professores - A proposta é de que a equipe de professores e funcionários também tenha raízes no meio rural, para assegurar a conexão entre teoria e prática. “É um trabalho desafiador. Queremos criar a possibilidade de os alunos resgatarem suas origens, valorizarem os saberes de suas famílias e identificarem alternativas para potencializar as propriedades e permanecer no campo”, enfatiza a professora do IFSul e membro da gestão da EFASul, Gisela Lange do Amaral.
Ferramentas e dinâmica de trabalho
Tutorias - Cada professor é responsável por acompanhar mais de perto um determinado grupo de alunos. O tutor torna-se uma referência para tirar dúvidas, intervir em situações de dificuldades e observar o cotidiano desse estudante.
Caderno de acompanhamento - É mais um instrumento para a equipe acompanhar o desempenho e os anseios do aluno. O caderno serve para anotar observações da semana, assim como as práticas desenvolvidas nos dias em que permanece em casa. Os pais ou responsáveis pelo jovem aproveitam esse mesmo canal de comunicação com a escola para realizar avaliação dos filhos.
Visitas às propriedades - Uma vez por semestre, o tutor desloca-se à moradia do estudante, para contato direto com a família. Um técnico agrícola - da Emater, da Embrapa ou de alguma cooperativa parceria do projeto - acompanha a visitação.
Projeto Jovem - Ao longo dos três anos e meio do Ensino Médio Técnico, os alunos são incentivados a desenvolver projeto que gostariam de ver implementado na propriedade da família - explica a coordenadora pedagógica, Rosane Motta. Desde pequenas intervenções estruturais até a introdução de alguma outra cultura, com orientações técnicas para escoamento da produção.
Decisões coletivas - Toda a rotina é baseada em decisões coletivas, seja em assembleias gerais, seja em definições de qual será a dupla encarregada de uma determinada tarefa, como a organização dos dormitórios. As rodas de conversa - antes do almoço e da janta - são mais um espaço dirigido ao diálogo. Informes, desabafos, ajustes e debates são possíveis. Em roda. De mãos dadas. Para crescimento de todos.

E o futuro?
O projeto é ampliar as instalações. Hoje, a escola funciona em antigo alojamento, dentro do Centro de Treinamento de Agricultores de Canguçu (Cetac), pertencente à Emater. A intenção é de iniciar as obras ainda em 2017.

Uma nova turma de Ensino Médio Técnico será aberta, possivelmente, no começo de 2018, independentemente da ampliação, já que as atividades poderiam ser desenvolvidas nas semanas em que os demais estudantes - já matriculados - estivessem em casa.

A origem
Desde 2012, o sonho de criar uma Escola Família Agrícola na região era alimentado, como forma de prevenir a evasão rural. Foi o que, finalmente, ocorreu no ano passado, depois de inúmeros debates fomentados pelo Fórum da Agricultura Familiar. E a escolha de Canguçu para sediar a instituição foi natural. A cidade possui mais de 60% da população no campo e mais de 14 mil pequenas propriedades.

Hoje, a Zona Sul abriga, portanto, a quarta EFA do Estado. As outras três estão em Santa Cruz, Caxias do Sul e Vale do Sol. Um motivo de orgulho. E de esperança: “Em geral, no amanhã, não existe o horizonte rural”, sintetiza o presidente da Associação Escola Família Agrícola, Cleu de Aquino Ferreira. É o desafio que está colocado a toda a equipe: que os jovens passem a se enxergar no campo. Diante de conhecimentos, de relatos e de vivências com que se identificam.

Apoie também!
A escola busca ampliar a rede de apoio, para além dos parceiros institucionais, como IFSul, UFPel, Furg, Embrapa e Emater. A ideia é apostar também em doações de colaboradores individuais, que ajudem a viabilizar as obras, a cobrir despesas fixas, como água e luz, e a elevar os valores pagos a parte dos profissionais. A busca por editais que garantam repasse de verbas também tem sido um dos caminhos para driblar a escassez de recursos.


Atualmente, dos 17 profissionais, cinco estão vinculados a instituições públicas de ensino e têm horas cedidas para atuar na EFASul. Dois são voluntários e só recebem apoio para os deslocamentos e dez recebem ajudas de custo que variam de R$ 500,00 a R$ 1.500,00. É importante lembrar, todavia, que na semana em que estão na escola, os alunos recebem atividades nos três turnos.
Os telefones para contato são (53) 98403-8870 e 98128-2693.

Diário Popular

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